O
livro conta a história de um simpático senhor, já
na terceira idade, que o narrador conhece casualmente em uma fila de
banco. J. Ferreira é um dentista renomado, extremamente simpático
e seduz a todos com seu belo sorriso (que sorri o corpo todo, menos
a boca), suas singularidades de expressão, sua simples e realista
filosofia de vida.
Tudo
com grande humor e sabedoria, que encanta a todas as idades e ajuda
"a despertar os homens e adormecer as crianças", a
modo de Carlos Drummond de Andrade, o nosso “poeta maior”.
Entre outras histórias do livro, sempre uma mistura de ficção
e documentário, como gostava de dizer J, porque “a vida
é assim”, têm destaque os seguintes casos: do fiasco
de sua ida ao Maracanã, onde torceu pelo time errado ("não
me avisaram que no segundo tempo, os times trocam de lado") e de
onde teve que sair escoltado; da ajuda que deu a Caetano Veloso para
compor a canção O Índio, hino épico das
Américas; de sua amizade com Vinícius de Moraes, que era
seu paciente e de sua paixão pela música, especialmente
por "Carinhoso" e “Rosa” de Pixinguinha - eleitas
por ambos, como “suas músicas”, sob o luar que banhava
o calçadão da praia - e pelas valsas, que ele dançava
com Analu, multiplicados em mil espelhos e temperados por mil sóis.
E
é ela mesma, Analu, que começa a perceber alguns sinais
de esquecimento em J, cuja memória era prodigiosa.
É diagnosticado o Mal de Alzheimer. A partir de então,
a angústia pela busca das melhores maneiras de suavizar o seu
sofrimento e de toda a família, que passa por um processo de
dor e abandono.
O romance trata com delicadeza e poesia, a complexa questão do
Mal de Alzheimer. Seu ritmo é ágil, merecendo destaque
o tratamento da linguagem, a qual faz uso contínuo do mecanismo
palavra-puxa-palavra.
Nesta discursividade, é interessante a dicção tão
peculiar de J.Ferreira, com suas expressões únicas, sua
maneira envolvente de falar e de se relacionar. A história de
J e de sua família é tão humana, porque é
igual a de muita gente.
Mauricio
Murad, o autor, é sociólogo, formado pela Ufrj,
doutor em sociologia dos esportes, professor da Uerj e professor titular
de sociologia do Mestrado da Universo, Universidade Salgado de Oliveira.
Autor de livros e artigos científicos publicados em diversas
revistas especializadas, no Brasil e no exterior. Seu último
livro foi "A violência e o futebol: dos estudos clássicos
aos dias de hoje" , Editora da FGV, 2007. Atualmente tem um livro
no prelo da mesma editora: “Sociologia e educação
física, notas introdutórias a um diálogo necessário”.
Em 1994 publicou o romance infanto-juvenil "Todo esse lance que
rola, uma história de namoro e futebol", pela Editora Relume-Dumará,
que recebeu uma premiação do MEC ("Sala de leitura")
e foi indicado pelo ministério, como obra paradidática.
Atualmente, este livro está sendo adaptado para o teatro, na
versão de um musical.